Escrevendo

Escurinho & Cherry

[Texto de Álvaro Burns]

Escurinho já pensava em sua aposentadoria quando acompanhou o senhor Silva naquela manhã chuvosa. Ele era um dos melhores guarda-chuvas de sua geração; resistente, robusto e bonito (o cabo de madeira escura e bem trabalhada combinava perfeitamente com seu tom preto fosco). Infelizmente, os sinais de ferrugem nas pontas já eram aparentes e os guarda-chuvas mais modernos e compactos passaram a dominar as ruas da cidade.

O senhor Silva sempre parava na padaria do Mané antes de abrir a banca de jornais. Deixava Escurinho num mancebo velho ao lado da geladeira de refrigerantes enquanto fazia seu pedido no balcão. Escurinho aproveitava para cochilar, afinal, sair de casa às 5 da manhã ficava cada vez mais cansativo.

Naquela manhã, uma mulher rechonchuda e sorridente também estava ali perto do mancebo. Era a nova vendedora de guarda-chuvas e sombrinhas. Um guarda-chuva chamado Prince acordou Escurinho. Queria saber como era acompanhar a mesma pessoa por tantos anos. Escurinho explicou que era preciso paciência, a relação entre um guarda-chuva e seu dono precisava ser harmoniosa, afinal, os dias de chuva são, na maioria das vezes, dias tristes e cabe ao guarda-chuva a obrigação de suportar as lágrimas dos anjos para que o dono possa chegar são e salvo ao seu destino, seja ele qual for.

Prince deu de ombros para as palavras de Escurinho, mas uma sombrinha descolada, moderna, vermelha com detalhes brancos se esticou para ouvir mais. Era Cherry, a mais bonita das sombrinhas à venda.

Escurinho ficou encantado. Ela era linda, e, apesar de nova, tinha um acabamento à moda antiga, feito a mão, além de ser muito inteligente e articulada. Cherry também se apaixonou imediatamente. Escurinho era sábio, experiente e educado. Quando ensaiaram uma aproximação, o senhor Silva veio e pegou Escurinho do mancebo, acabando com a conversa.

Ele só pensava em Cherry. As cores vivas iluminavam seus pensamentos. Aos poucos, o entusiasmo se transformou em chateação, pois imaginou que nunca mais a veria.

Os dias de chuva estavam cada vez mais raros. Começava a primavera e Escurinho aproveitava seus dias de descanso para observar as crianças brincarem na rua. De repente uma menininha ruiva e sardenta saiu da casa da vizinha. De tão branquinha, não podia ficar exposta ao sol e, para se proteger, usava uma sombrinha vermelha com detalhes brancos…

CHERRY!

Escurinho ficou agitado. Bateu na janela e berrou com toda a força até que Cherry se virou e o viu. Ela ficou muito feliz, também achava que nunca mais o encontraria e a única coisa que ainda a fazia sorrir era ver sua dona, Flávia, brincando com as outras crianças.

Eles só pensavam no reencontro, mas, havia um problema: ele só saía de casa na chuva e ela, nos dias de sol.

Escurinho não se conformava com essa situação. Acostumado com o cinza dos dias chuvosos, ele via nas cores e na alegria de Cherry um motivo para sorrir. Cherry, por sua vez, via em Escurinho o ponto de equilíbrio que lhe faltava. Ela adorava brincar com Flávia, mas sabia que o sorriso mais gostoso é aquele que aparece de repente, sem motivo aparente, apenas com uma lembrança daquele que se ama.

A chuva veio numa segunda-feira estranha. Escurinho, como de costume, foi convocado a acompanhar o senhor Silva. Cherry, sabendo disso, se preparou e esticou o cabo para a dona Terezinha, mãe de Flávia, que precisava dar um pulo na farmácia. Como a padaria ficava bem ao lado da farmácia, Escurinho e Cherry conseguiram trocar alguns olhares mais de perto, matando um pouco da saudade, mas, quando voltava pra casa, Cherry foi surpreendida por uma forte tempestade.

Escurinho ficou preocupado e, no dia seguinte, acordou cedo para ver se Cherry sairia para brincar com Flávia na rua, mas a ruivinha não saiu. No outro dia, a mesma coisa. No seguinte, nada…

Escurinho estava desolado. Por sua causa, Cherry enfrentou aquela tempestade e agora havia desaparecido.

Quando o sábado chegou, Escurinho foi ao parque com o senhor Silva, que, mesmo com chuva, sempre saía para ler o caderno de cultura no mesmo banco em que conheceu sua falecida esposa. Cabisbaixo, Escurinho nem olhava para os lados. A chuva perdia força e alguns valentes raios de sol perfuraram as nuvens. Uma menina sentou-se no mesmo banco que o senhor Silva e, sorridente, pediu para que olhasse para o lado direito. Era Flávia, apontando para o arco-íris que se formava no horizonte. Escurinho abriu os olhos e percebeu que a menina trazia sua sombrinha para protegê-la da fina chuva. Cherry tinha um pequeno remendo, feito com um esparadrapo colorido, mas estava bem! Os dois sorriram e conversaram muito! Ali perceberam que o amor é construído entre os dias tristes e felizes. No colorido do arco-íris.

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