Descobrindo

Força das – e nas – palavras

Nesse fim de semana calorento, zapeando pela TV à noite (pra variar), me deparei com um documentário que falava sobre a influência do hip hop nas periferias de países que não os Estados Unidos: “The Furious Force of Rhymes“.

Peguei bem na parte em que mostrava rappers da periferia francesa, em sua maioria negros e/ou descendentes de árabes. Esse trecho específico foi muito, mas muito interessante, principalmente pelos acontecimentos recentes – o ataque ao jornal satírico Charlie Hebdo por dois irmãos fundamentalistas muçulmanos e outro fundamentalista, negro, que fez reféns numa loja de artigos judaicos. Os ataques – ou atentados – já foram classificados como terroristas; Je Suis Charlie Hebdo pipocando nas redes sociais, TVs, jornais e em bottons usados por George Clooney e Amal Alamuddin. Só que a maioria esqueceu – ou deixou pra depois – um fato importante: a forte onda xenofóbica/ racista que vem invadindo a Europa.

É interessante principalmente por revelar que periferia tem em qualquer lugar do mundo, não importando o grau de desenvolvimento do país; e que o preconceito contra o negro e o imigrante é crescente – e vergonhoso. Na França, por exemplo, um dos entrevistados, negro, revelou que tinha voltado a usar o transporte público há alguns meses, depois de anos de carro próprio; e que quando se sentava num banco, os outros passageiros preferiam deixar o lugar ao lado dele vago mesmo sendo aquele o único vazio; e que se alguém sentava ao seu lado, era negro também.

Além da periferia da França, o documentário mostrou a força e influência do hip hop no cotidiano e histórias de pessoas da antiga Alemanha Oriental (que ainda sofre os efeitos separatistas do Muro de Berlim), Palestina-Faixa de Gaza-Israel, Senegal (que foi colônia francesa) e Estados Unidos, berço do movimento. Locais em que a intolerância, o preconceito, o desemprego – o “pesadelo do imigrante que veio roubar sua vaga no mercado de trabalho” – e a violência definem as ações da maioria contra a minoria. Segregação, medo, generalização.

É interessante notar, também, que o rap revelou-se uma válvula de escape pra muita gente, em especial os jovens, que usam as rimas pra explicitar situações do cotidiano. Independente da língua ou da cultura. Pra se ter uma ideia, o doc mostrou garotas palestinas empunhando microfones e mandando muito! Na minha visão, ocidentalizada e ignorante, elas não teriam espaço nesse cenário. Mas o hip hop dá espaço pra todos e todas. Basta representar.

É como no Brasil, onde os grandes clássicos do rap falam sobre o dia-a-dia das periferias; drogas; violência urbana; preconceitos; Estado x Cidadãos; preto = bandido x branco = patrão. É só ouvir qualquer música dos Racionais MC´s que, certamente, alguém se identificará com algum verso. Letras falando sobre vida/ morte e buscando afirmação, orgulho do lugar onde se cresceu e da sua raça e de suas raízes.

Se puderem, por favor, vejam o documentário e a motivação de cada um dos personagens pra rimar. Num mundo onde tudo é generalizado, é importante sabermos que as diferenças existem e não são suportadas. Nenhum lado está certo e nenhum lado está errado.

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