Escrevendo

Moreninha

Há muitos anos, quando fui à delegacia fazer meu documento de identidade (RG), tive que responder sobre a minha cor. Me considerava branca, negra ou parda? Respondi “parda”, por causa do tom da minha pele, e não pela minha raça.

Hoje, depois de muito ler sobre empoderamento feminino e da mulher negra, percebo como “pardo” soa sem sentido. Hoje, me vejo como negra, independente do tom da minha pele. Meus pais são negros, meus avós eram negros (com exceção da minha avó materna, que era branca e descendente de índios).

Ontem, durante uma ligação para tentar resolver algo que, teoricamente, está resolvido, mas que na prática se tornou pura enrolação e pouco caso, a atendente me disse: “Ah, eu lembro de você! Uma moreninha que veio aqui…”

Como eu estava muito puta da vida com a falta de respostas (para não falar outra coisa), respondi de pronto – e com uma certa arrogância, agravada pelo estresse: “Não sou moreninha, sou negra.”

Pela primeira vez na minha vida, fiz esse tipo de afirmação. Pela primeira vez na minha vida, tive que corrigir alguém quanto a minha raça, minha cor, minha característica física. Pela primeira vez.

E não vejo como motivo de orgulho, mas como um desabafo, quase um tapa na cara de quem me chamou de “moreninha”. E uma atitude um tanto quanto rude da minha parte – agravada pelo estresse, como disse anteriormente.

“Moreninha”, para mim, é o título do livro do Joaquim Manuel de Macedo, aquele que é ensinado na aula de literatura quando estudamos o Romantismo do século 19. E que não se trata de um romance em que a protagonista é negra. Ela é branca de cabelos escuros.

É meio conflituoso para mim fazer esse tipo de afirmação. Não sou ativista, mas defendo com unhas e dentes o direito de toda mulher não precisar seguir padrões de beleza inatingíveis e eurocêntricos propagados exaustivamente por revistas e pela televisão. A liberdade de exibir cachos, afros, cabelos curtos ou raspados, lisos naturais ou não, sem ter que ouvir piadas, apelidos burros e idiotas na rua ou não conseguir um emprego por causa disso.

Por isso, peço para que revejam conceitos. Chamar uma negra de “morena”, mesmo que ela tenha a pele mais clara, é até ofensivo, porque dá a impressão de que você está atenuando a raça e/ou pensando que ao chamá-la negra ou preta está sendo racista. Não, não está.

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