Descobrindo

Descobrindo: Série Napolitana

É isso, mesmo! Sou uma das muitas leitoras que Elena Ferrante está arrebatando pelo mundo com sua “Série Napolitana”.

Pra quem não sabe, Elena Ferrante é o pseudônimo usado por alguém – não se sabe se mulher ou homem – que virou fenômeno literário na Itália e, agora, ao redor do mundo. Seus livros – pelo menos os que eu já li – usam Nápoles como cenário e mulheres como personagens principais.

Nesta “Série Napolitana”, composta por quatro livros, sendo que apenas três foram lançados no Brasil, Elena Ferrante conta a história de duas amigas de infância, Lenú e Lila, que durante toda uma vida têm uma relação muito conflituosa e, ao mesmo tempo, de extrema dependência, principalmente intelectual. Uma precisa, mesmo que não saiba, da opinião-inteligência-estima da outra pra prosseguir.

No primeiro volume, “A Amiga Genial”, ficamos sabendo que uma delas desaparece, e a partir daí a outra começa a contar a história de como se conheceram, do bairro onde viviam, das famílias, da sociedade da época e, sobretudo, da relação entre elas, ora movida por curiosidade, ora por inveja. Neste livro, somos apresentados à infância das duas, rodeada por muita pobreza, intrigas e disputas na escola. Quem era a mais inteligente? Quem se destacava? Quem era a amiga genial do título?

O segundo volume, “História do Novo Sobrenome”, já aborda a adolescência das amigas, vivida no mesmo bairro, porém com trajetórias distintas. Uma delas desistiu dos estudos, mas continua sendo a referência de inteligência da que continuou – tanto é que, mesmo sem ir à escola, ela consegue se equiparar e até mesmo ficar em grau de superioridade que a outra, chegando a ensiná-la gramática, línguas, etc. É nesta fase que uma das amigas (e rivais, como secretamente eu apelidei esta série, ahahahahaha!) bola um plano mirabolante pra se ver livre de um pretendente rico, porém mala, tirar a família da miséria e garantir a sua liberdade se casando com outro cara rico, porém parça. Tudo isso enquanto a outra metade da laranja da amizade se empenha, com louvor, nos estudos, mas sem deixar de creditar à bff todas as suas boas notas.

O terceiro, “História de Quem Foge e de Quem Fica”, já traça o panorama da vida adulta delas. É aí que vemos em que pé a relação das duas ficou depois que uma delas casou, começou a sofrer violência doméstica (considerada super normal pela sociedade em que viviam), traiu o marido e o abandonou; e a outra saiu da cidade, se formou na faculdade, publicou um livro “polêmico” e começou a colher os frutos do sucesso, também se casando com um herdeiro de grandes mentes pensantes. E é aí que a ligação volta a se fortalecer e, ao mesmo tempo, se desgasta. Uma só pensa em cada vez mais se ver livre do bairro em que vivia; a outra pensa em voltar a ele, mas por cima da carne seca – ou nem isso. E é neste livro que temos uma presença maior de um clima de violência – nas ruas, por causa dos conflitos políticos, no ambiente de trabalho, em casa.

O quarto e último livro ainda não foi lançado no Brasil, mas no exterior sim. Inclusive, em Portugal saiu com o título de “História da Menina Perdida”, e dá pra ler um trecho aqui. Com certeza, este contará a vida das duas pós-casamento, pós-filhos e a entrada na velhice, até chegar ao ponto de início de toda a história: o sumiço de uma delas.

Sobre a leitura: a do primeiro foi a mais penosa de todas! Pelo fato de a autora precisar dar o tom do restante da história, é preciso dar muitos detalhes, apresentar muitos personagens que, às vezes, parecem que estão ali à toa, mas que mais pra frente terão papel importante no desenvolvimento. É tudo muito lento, num vai e volta de “ela é tão legal, eu odeio ela, por que ela me trata assim?, vou me afastar, ela me ama, vou reatar o relacionamento”, que beira o desgastante. Fora que a narradora, por vezes, é muito chata!

O segundo e o terceiro já deu pra ter uma empatia maior com a moça que tá contando os fatos pra gente. E a leitura é mais rápida, com aquele gosto de “não posso parar agora porque quero saber o que vai acontecer no final”. Principalmente pelo fato de ela ter percebido que a amiga é, sim, ruim, muito ruim, com todos e, principalmente, com ela; e que ela precisa virar o jogo em favor dela mesma pra finalmente sair dali, do bairro que considera uó, atrasado, e ser independente. Terminei o último livro voltando a ter raiva da narradora e a achando chata e boba, mas com muito mais substância que no primeiro.

O interessante é que, ao conhecermos a infância, adolescência e juventude dessas moças, desenroladas no pós-2ª Guerra (década de 1940-1950 em diante) – lembrem-se que a Itália foi um dos países perdedores -, vemos por quantas coisas a mulher já enfrentou nessa vida: submissão ao marido; casamentos arranjados, prematuros (muitas se casando muito novas) e usados como trampolim social; estudos encerrados no fundamental pra ter que se dedicar ao lar ou à criação dos irmãos mais novos; violência doméstica banalizada; assédio na rua e no trabalho; desmerecimento da capacidade intelectual; falta de acesso a informações sobre sexualidade e reprodução – tratados como tabu. É interessante notar que muitas das coisas pelas quais as personagens passam ou testemunham ainda estão presentes hoje no nosso cotidiano, em maior ou menor grau. Evoluímos?

Enfim, estou muito ansiosa pra terminar a série, pra saber quem vai se lascar, quem vai ficar por cima da carne seca, quem mais vai morrer de forma misteriosa, e como ficará a relação das amigas e rivais no fim da vida.

Recomendo a leitura e quero saber se alguém por aqui leu, se interessou e/ ou teve impressões diferentes das minhas.