Descobrindo

Terminei a Série Napolitana

Elena Ferrante me deixou com sentimentos conflitantes quando terminei sua Série Napolitana – falei sobre os três primeiros volumes aqui.

O último livro, “História da Menina Perdida”, trata sobre a maturidade e velhice de Lenu, a narradora, e de Lila, sua amiga-rival de infância.

E já começa falando sobre a vida que Elena Greco escolheu para si: depois de muitos anos, ela finalmente consegue o amor de sua paixão platônica de infância, Nino Sarratore – que foi amante de Lila. E nesse clima, ela deixa o marido e vai embora viver esse caso tórrido, que a faz crescer como escritora, mas, ao mesmo tempo, a faz sofrer por não conseguir ser a mãe ideal de suas duas filhas.

Só por ter se separado do marido e ter deixado uma vida considerada abastada para viver um grande amor, Lenu é muito criticada. Fora que ela descobre, tempos depois, que seu amante não é flor que se cheire. Só que já é tarde. Ela volta para Nápoles para viver com ele e, nisso, reata os laços com o bairro que tanto queria deixar para trás.

E, com isso, passa a conviver muito mais com Lila, agora uma próspera empresária do ramo da informática, que continua a mexer pauzinhos para fazer com as coisas e as pessoas funcionem do jeito que ela quer.

Com essa volta, mais as duas últimas filhas de cada uma das amigas – que nascem na mesma época e que evocam as lembranças de infância -, Lenu aprende que, mesmo querendo muito ser e parecer uma pessoa culta, diferente e distante do bairro violento onde nasceu e foi criada, tudo o que ali ocorreu – as mortes, os conflitos, as turbulentas relações familiares e políticas – a moldaram de uma forma que ela só se deu conta com a morte da mãe.

E com esse regresso ao bairro e ao convívio diário com a amiga, a narradora começa a colocar em vários pontos da trama a história das bonecas, Tina (que, inclusive, dá nome à filha caçula de Lila) e Nu, início de sua amizade. E o final de “História da Menina Perdida” trata exatamente desse desfecho.

Em “Amiga Genial”, as duas personagens passam a ter essa relação simbiótica e tóxica quando brincam de bonecas na rua e uma delas joga em um porão o brinquedo da outra. Por anos, o objeto foi tido como perdido, ou escondido pelo mafioso local. No final das contas, ficamos sabendo que não foi isso o que aconteceu.

Os sentimentos conflitantes que mencionei logo no primeiro parágrafo vêm exatamente de ter acompanhado essa história de duas amigas que ora se dão muito bem, ora se dão muito mal, porém não conseguem se afastar ou resolver suas pendências. Lenu é feita de trouxa em todos os quatro livros por Lila, que tudo sabe, tudo vê, enxerga longe, mas não é capaz de criar um mundo maravilhoso para si porque se importa muito mais em mexer com as estruturas alheias que mergulhar em si. Porque ela sabe que ela não tem jeito.

Durante vários momentos, pensei em atribuir a Lila algum tipo de doença mental – principalmente nos casos em que ela cita a “desmarginação” – quando as pessoas e coisas perdem contorno e se transformam em algo que ela não consegue controlar. Ao mesmo tempo, nem isso fazia com que ela deixasse de ser deliberadamente ruim, dando a desculpa de que agia assim para que todos fossem melhores que ela.

Lenu também é outra que não consegue deixar de ser influenciável. Por Lila, por Nino, pelos Airota, até mesmo pelas filhas. Ela consegue se destacar, ser uma escritora de sucesso, mas, ao mesmo tempo, que tipo de pessoa se torna? Extremamente dependente de Lila, para tudo. Mesmo enfrentando dificuldades, preconceitos, traições; mesmo em diversas partes ela ter conseguido minha empatia, por vezes me pareceu muito… chata e reclamona! Rs…

O que mais marcou a Série Napolitana, para mim, foi essa relação tóxica, essa dependência das protagonistas. A maneira como Ferrante abordou a temática deixa o leitor angustiado, querendo terminar logo de ler para saber se finalmente haverá uma redenção, uma vingança, uma mudança, uma reviravolta. E, no fim das contas, o que a autora nos oferece é um texto cru, que nos diz “não acreditem em finais felizes e fáceis porque isso aqui não é um conto de fadas”.

E vocês: já leram esses quatro livros ou algum outro de Ferrante? O que acharam?

 

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